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Kilimanjaro, 100% cume

No ultimo mês de setembro, parti do Brasil com mais 13 pessoas buscando mais uma grande viagem, a realização dos sonhos dos muitos dos envolvidos, dessa vez com destino à Tanzânia – África. Escalaríamos o Kilimanjaro, a maior montanha do continente africano.

Kilimanjaro, 100 cume

Como esperado em grupos de expedicionários, havia ali grupo bastante heterogêneo de participantes, existiam pessoas com experiência em montanha e bem treinadas, outras nunca tinham chegado perto de montanha alguma. Alguns participantes buscavam a superação pessoal em realizar mais um desafio, outras apenas buscavam uma forma nova de viajar e viver a vida.

A organização desta viagem foi minuciosa, todos os serviços locais estavam bem definidos e reservados, assim que como a todos esclarecimentos possíveis já haviam sido dados. Mas, tivemos alguns problemas de voos, o que criou uma certa expectativa e apreensão, no entanto conseguimos nos manter motivados e seguros, tendo estes problema inicial solucionado.

A viagem até o aeroporto de Kilimanjaro é muito longa, com uma parada em Johanesburgo, por conta disso chegamos na cidade de Moshi e tiramos um dia inteiro de preparação e descanso antes de iniciar a caminhada.

Tudo pronto, agora e pé na trilha. No primeiro dia caminhamos por 6h30min, saímos de 1.800 m para 2.750m em meio a uma densa floresta tropical muito parecida com trilhas brasileiras na Serra do Mar, avistamos macacos azuis, corvos e pequenos camaleões, que as crianças locais acabam capturando para mostrar aos turistas em troco de alguma moeda. Chegando no primeiro acampamento (Mandara) nos alojamos nos huts, que são pequenas construções de madeiras parecidas com chalés. Esta é a estrutura tida como facilitadora e é possível pela Rota Marangu, onde não temos a necessidade de acampar, carregando assim menos carga.

Todos surpresos com a facilidade do primeiro dia de caminhada dormiram e acordaram com muito mais intimidade que o dia anterior, os assuntos abordados no café da manha foram os odores e a sonora noturna, que ao meu ver serviu para deixar o grupo ainda mais descontraído e unido e perdendo a formalidade dos dias na cidade.

No segundo dia de caminhada saímos da vegetação tropical e entramos nos campos de altitude com pequenos arbustos, ganhando mais 1.000 metros de desnível até alcançar os 3.800 m de altitude de Horombo Hut depois de 7 horas de caminhada. Neste acampamento optamos sempre por ficar 2 noites afim de permitir que o corpo gradualmente assimile mais oxigênio numa atmosfera de pressão mais baixa que caracteriza o ar rarefeito.

O terceiro dia foi de descanso e aclimatação, fomos ao riacho mais próximo para observar as endêmicas plantas lábeia e cinesia, que se parecem com grandes e altas bromélias.

No quarto dia, saímos de Horombo, já aclimatados e partimos a Kibo (4.750 m) entrando na vegetação nomeada de deserto alpino, basicamente pedras e plantas minúsculas. Após 5 horas de caminhada já estávamos no pé da montanha, prontos para tentar o cume no próximo dia.

Em Kibo começamos a sentir bastante os efeitos da altitude onde alguns já reclamavam de dores de cabeça, enjoos e cansaço excessivo. O segredo após estar aclimatado é manter uma boa hidratação, de pelo menos 4 litros de liquido por dia, descanso e manutenção da mente tranquila. Todos procuraram seguir as orientações.

Às 23 horas do quinto dia de montanha entrei no quarto de todos, dessa vez um pouco mais fervoroso do que nos dias anteriores e disse: “Vamos meter cume”. Todos me olharam assustados, estranhando a força das palavras já que até então havia sido bem calmo, mas mal sabiam eles, o duro dia que estava por vir! Costumo dizer que o Kilimanjaro é uma montanha tranquila, pois não exige técnicas em escalada, mas possui um dia de cume extremamente exigente com uma caminhada de 1.145 m de desnível desde os 4.750 m até os 5.895 m, que são percorridos em aproximadamente 9 horas de subida, enfrentando toda dificuldade de uma alta montanha.

A noite estava tranquila e a lua sorrindo alaranjada em nosso horizonte, escalamos até os 5.000 m com ótimo clima, quando este resolveu piorar e impor um vento continuo de 40km/h.

Os problemas de frio, medo, altitude, ar rarefeito e a pergunta “o que estou fazendo aqui?”, começaram a surgir na cabeça dos envolvidos. Analisando que todos estavam bem aclimatados e apenas com inicio de desgaste físico, decidi motivá-los passo-a- passo sem cobrar-lhes rendimento ou resultado.

Enfrentamos o constante vento até o Gillman’s Point, primeiro dos 3 pontos de cume da cratera do Kilmanjaro, quando este vento passou a ser de aprox. 60km/h e já haviam pessoas comemorando aquele, sem demora informei que o cume, o ponto mais alto ainda estava longe e que pelo clima que fazia deveríamos continuar em movimento e com o corpo aquecido. Respeitosamente prosseguimos e pude chegar com 10 pessoas que me acompanhavam e ainda saber que os 3 que haviam parado por mais vezes também estavam subindo e chegariam dentro de no máximo 30 min. ao Uhuru Peak ou pico da libertação, o ponto mais alto da áfrica., junto com Coleman, grande guia africano.

A alegria me tomava conta como poucas vezes pude sentir, chegar com todos os participantes ao cume desta montanha tem sido foi uma conquista coletiva mais abrangente e intensa do que quando chego sozinho realizando projetos pessoais. Algo incrível! A alegria de todos foi contagiante!

Voltamos ao ultimo acampamento depois de uma descida árdua em meio a cascalhos, ainda sem acreditar que todos entre aqueles amigos que fizemos em menos de 12 dias de viagem tinham alcançado seus objetivos. Alguns diziam que duvidavam de si próprios, alguns falavam do clima, alguns falavam das dificuldades e todos contemplavam o momento de realização.

O Kilimanjaro não é uma montanha fácil, a ascensão em 6 dias é relativamente rápida contando que saímos dos 1.800 m e vamos até 5.895 m e o dia de cume que é bastante duro, sendo um dos desníveis mais longos que já experimentei.

Atribuo o grande sucesso desta expedição ao grupo, pois os participantes estiveram cheio de companheirismo, se fizeram motivados e mostraram a eles mesmos que o limite esta muito além do que imaginamos e é claro aos africanos locais que com muita alegria e força de trabalho fazem a diferença em nossas expedições, entendem pouco sobre a técnica de escalada, mas são sábios quando o assunto é a altitude e respeito que devemos ter perante a montanha, a natureza.